domingo, 28 de setembro de 2014

VIVA A VIDA

O dia mais belo? Hoje.
A coisa mais fácil? Errar.
O maior obstáculo? O medo.
O maior erro? O abandono.
A raiz de todos os males? O egoísmo.
A distração mais bela? O trabalho.
A pior derrota? O desânimo.
A primeira necessidade? Comunicar-se.
O que mais lhe deve fazer feliz? Ser útil aos demais.
O maior mistério? A morte.
Nosso pior defeito? O mau humor.
A pessoa que nos é mais perigosa? A mentirosa.
O sentimento mais ruim? O rancor.
O Presente melhor? O mais belo que possamos dar: O perdão.
O bem mais imprescindível? O lar.
A rota mais rápida? O caminho certo.
A sensação que nos é mais agradável? A paz interior.
A maior satisfação? O dever cumprido.
O que nos torna mais humanos, mais tolerantes? A dor.
Os melhores professores? As crianças.
As pessoas mais necessárias? Os pais.
A força mais potente do mundo? A fé.
A mais bela de todas as coisas? O amor... sempre o amor!

(Texto que encontrei num folheto institucional da empresa Girassol Presentes, com sede em Gramado-RS, sem identificação de autoria).

domingo, 1 de setembro de 2013

À Procura por Deus

Durante a última semana, enquanto assistia um telejornal de uma emissora capixaba, surgiu uma reportagem que buscava entrevistar o pai de um adolescente brutalmente assassinado nas ruas da Grande Vitória, quando chegava à sua casa. Mesmo com muita dor e após ter testemunhado a execução sumária de seu estimado filho, o pai limitou-se a dizer que o momento atual de violência, vivido pela sociedade brasileira, se deve à falta de Deus no coração dos homens. 

Essa constatação deixou-me reflexivo, pois todos nós sabemos que o mundo seria muito melhor se as pessoas colocassem Deus no coração, pois haveria maior fraternidade, solidariedade e cumplicidade entre os homens. Mas tenho a impressão que os homens têm buscado por Deus em todos os lugares, menos onde O encontramos: no fundo do coração.  
 
Queremos que Ele nos dê tudo e pouco lhe oferecemos em troca.

A vida agitada, o culto ao corpo, ao consumismo, ao prazer visceral, sem contar com o filtro que igrejas e seitas colocam pelo caminho, através de seus dogmas e doutrinas, constituem, em meio a tantos outros percalços, desvios para esta busca. É mais fácil admiti-Lo assistindo o rito, oferecido por um caminho religioso, tornando essa busca mais pragmática, porém recebendo a falsa convicção de que sozinho não é possível chegar a Deus, senão através de um agente intermediário. Ao contrário, a busca por Deus é um esforço estritamente individual através da interiorização da consciência.

Mas como encontrá-Lo? 

Sempre que estou diante dessa reflexão, lembro-me do cantor e compositor Gilberto Gil e de sua extrema sensibilidade e aguçada visão humana. Gilberto Passos Gil Moreira dispensa maiores apresentações. Os brasileiros o conhecem. Há pouco tempo tive a honra de folhear a excelente edição do livro "Todas as Letras", organização de Carlos Rennó, textos de Arnaldo Antunes e José Miguel Wisnik, edição gráfica de João Baptista da Costa Aguiar e iniciativa da Companhia das Letras. Publicado em 1996 pela Editora Schwarcz Limitada., a publicação contempla letras comentadas pelo compositor, produzidas durante a década de 1980.

É claro que Gil transborda sensibilidade e sua insatisfação diante dos porquês da vida. Sobre o principal instrumento desta busca, a meditação, ele fala o que pensa através da letra "Meditação", composta em 1975, que diz à certa altura:

" Dentro de si mesmo 
Mesmo que lá fora
Fora de si mesmo
Mesmo que distante
E assim por diante
De si mesmo, ad infinitum
Tudo de si mesmo
Mesmo que para nada
Nada para si mesmo
Mesmo por tudo
Sempre acaba sendo 
O que era de se esperar".

Reportando-se sobre a letra, afirma Gil: "Uma canção sobre meditação, que é uma canção, que é uma meditação (uma canção-meditação), fruto de um processo de meditação e realizada em estado de meditação. Dentro de mim mesmo. Meditação é uma busca de extratos rarefeitos do pensar e do sentir, do olhar entre o sujeito e o objeto, sobre o si e o em si, e sobre o ser. A letra resultou de horas e horas, dias e dias de meditação sobre a música".

E foi inspirado nessa preocupação de unir experiência e busca por resultados que ele compôs a belíssima letra de "Se eu quiser falar com Deus". Ela vem recheada de experiências de sua alma, dentro de um contexto universal, de quem busca, encontra e transcende toda a dimensão pessoal, conforme a letra enseja, em composição datada de 1980:

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os noz
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar o cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos  do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração.


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas para me segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as  costas, caminhar
Decidido,  pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar
 
Quem ouvir esta música, prestando atenção em sua letra, não precisa mais procurar pistas de como empreender a viagem para dentro de si em busca de Deus. O autor deixa entrever que, para escrever esta belíssima canção, primeiro fez a sua busca, adquiriu suas experiências, chegando a olhar e encontrar dentro de si o Sujeito desta busca.
 
Mais do que tudo relata uma experiência pessoal que canta e encanta, arrebata e inspira, por seu verdadeiro conteúdo universal ou universalista.
 
Para buscar Deus a alma deve calar, renunciando todas as experiências de vida, as ideias pré-concebidas, o delineamento de onde quer chegar. A alma deve despir-se de tudo, inclusive de seu próprio ego, o mais teimoso em deixar a cortina baixar para que a verdadeira realidade se apresente.
 
Lao Tsé, em seu Tao Te King, há cerca de 2.600 anos, já disse que não é o finito que vai ao infinito, mas o infinito que vem ao finito. Isso significa que a alma tem que dar o primeiro passo: fazer silêncio para auscultar a voz do Infinito, a alma do Universo, fora de nossa linguagem e também abstraindo de todas as correntes mentais a que estamos envolvidos, principalmente nos dias atuais.
 
Levados pela fé, todos nós podemos viajar pelas profundezas de nosso ser, até encontrarmos o vazio-Deus e daí a descoberta de um plano diferente de tudo o que se possa imaginar, mas que se imagina existir, a possibilidade de transmutação, com o desaparecimento das manifestações físicas, da entidade psíquica que chamamos alma, do inconsciente eu - para outra coisa, outra forma de consciência. 
 
Por isso me lembro bem, como se fosse hoje, das sábias palavras do padre Inácio Larrañaga, ditas quando eu ainda era jovem, de que "só há uma maneira de encontrar Deus: de joelhos". Se cada um conhecesse e vivesse a realidade tão bem explicadas nos livros máximos da humanidade, a vida terrestre do homem, em lugar de ser um inferno de discórdias, seria, como disse Humberto Rohden, um paraíso de harmonia e felicidade.
 
Creio que esse pai, a que vi naquele telejornal, hoje enlutado, que deu seu brado em meio à dor de ver o seu filho brutalmente assassinado, já iniciou esta jornada, mesmo com todo o pesar de sua alma. Em um mundo conturbado, onde a sociedade harmônica está na UTI, precisamos largar um pouco nossas amarras com tudo o que nos solicita para nos voltarmos para o silêncio.
Se quisermos mudar o mundo, façamos como Gil ou este pai enlutado, colocando em prática nossas experiências de busca, oferecendo uma contribuição para a  própria experiência da humanidade. Não esperemos pelos demais. Iniciemos o nosso trabalho. Com isso, estaremos, por certo, revelando novas formas de existência, que dão um novo contorno à vida neste plano, ora tão conturbada, dolorida e muitas vezes encoberta por nuvens da desesperança. Com isso, vamos seguir rumo ao que diz o Poeta Gil, em sua letra, mesmo alcançando algo diferente ao que anteriormente chegamos a preconizar: 
 
 
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas para me segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as  costas, caminhar
Decidido,  pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar.
 
 
 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Besouromania

Mal tinha completado meus 13 anos quando ouvi, pela primeira vez, no rádio (é claro!), uma música diferente, completamente fora dos padrões da época. Aos poucos fui me sentindo atraído por ela, à medida que meus pais colocavam as suas mãos sobre a cabeça, simplesmente horrorizados por seu ritmo "alucinado" e estridente. Meu pai, que adorava ouvir tango e músicas gauchescas, balançava a cabeça. Minha mãe, cujo apelido, na época, era "generala", gostava de valsas, polcas e alguns autores eruditos, também dizia que aquela melodia "endiabrada" não era música. "Que horror", dizia. 

Fui, aos poucos, penetrando naquele ritmo, produzido por quatro rapazes de Liverpool, até que já fazia parte de mim.  Costumava sair em companhia de meu mais fiel e contumaz amigo, o Alfred, a quem ainda tenho a sorte e o privilégio de contar com sua amizade, passados tantos anos. Íamos e voltávamos da escola de primeiro grau, cantarolando e, na maioria das vezes, desafinando os versos de "She loves you", "A Hard Days Night", " And I Love Her", " Twist and Shout" e tantas outras. 

Os Beatles, ou simplesmente, os besouros provocaram uma verdadeira revolução cultural mundial, talvez a primeira delas em busca da mundialização, vésperas da globalização, ainda que os recursos tecnológicos e fonográficos daquela época tenham sido incipientes, pois a principal mídia era o rádio, além, é claro, dos discos produzidos em acetado, as chamadas "bolachas pretas".

Por muito tempo os Beatles dominaram as paradas musicais dos principais países consumidores, mas sua existência, no mundo artístico, durou apenas sete anos. Deixaram um inigualável tesouro artístico: 13 álbuns,  que vão desde o "Yeah, Yeah, Yeah" até "Revolutions", em 1970, quando eu já ingressava em meu curso universitário. 
 
Creio que as novas gerações mal tenham ouvido falar de sua existência. Mas o mundo do Rock deve muito a esses quatro rapazes, quase tudo. Eles usavam cabelos esquisitos, justamente como obra do acaso de terem molhado suas madeixas e não terem encontrado tempo para enxugá-los antes de uma apresentação. Era o início do rompimento do status quo vigente nos anos pós-guerra. Por onde passavam, eles provocavam verdadeiras histerias grupais e arrastavam multidões, tanto na Inglaterra, quanto nos Estados Unidos. 

Para mim, a febre passou e suas primeiras músicas, mais comerciais, foram por mim consideradas como irremediavelmente deixadas no passado, assim como as memórias de experiências vividas ao som daqueles rapazes ingleses. Um fenômeno que veio, sacudiu e simplesmente passou, assim como tudo passa nesta vida.

Mas, a partir deste mês, começou a circular pelas nets um documentário, que trás a assinatura de Martin Scorcese, intitulado " Living in Material World ", resgatando a vida de um dos mais enigmáticos componentes daquela banda: George Harrison. Dividido em dois capítulos, o documentário faz a trilogia de Harrison desde os tempos que era um Beatle.  


BESOUROMANIA EM REVISTA 

Eles não foram somente inovadores nas melodias e nas letras, na forma de vestir, falar ou em seu gestual, mas até mesmo na forma de se estruturarem para trabalhar. Os Beatles não tiveram lideres. Eram absolutamente solidários e acéfalos. Tudo era dividido e repartido de forma grupal. Nos primeiros tempos, os quatro integrantes cantavam e tocavam músicas compostas por John Lennon e Paul Mc'Cartney, às vezes à quatro mãos, às vezes alternadamente. Depois veio George Harrison cujas primeiras composições não receberam a unanimidade, entre os membros do grupo, e, portanto, não eram gravadas. Mas quando compôs "Something" não parou mais. 

Liderava o grupo, na composição dos arranjos e harmonias, aquele que tinha composto a música que estava sendo trabalhada. Os demais seguiam o tom dado pelo compositor do momento. De início as músicas tinham objetivo claro: fazerem sucesso, ganharem dinheiro e serem populares. Mas quando a fama veio descobriram que isso não era tudo. Ao contrário. Cedo descobriram que, ao participar de um projeto musical, estariam produzindo a si mesmos. E, por isso, relativizaram o sucesso, ignoraram a importância de serem populares e adotaram um estilo que reflete as diferentes fases de busca de suas questões interiores.

Toda a trilogia dos besouros e também de cada um deles responde pelo desejo imanente de quatro homens em busca de suas essências, de querer compreender ou traduzir os grandes enigmas da existência, contribuir para a formação de uma sociedade que resgate a paz entre os homens, o amor e a fraternidade como pilares de uma sociedade mais justa e participativa. 

Eles lideraram um movimento contra os padrões autoritários e despóticos da época, da educação rígida, da submissão ao poder paterno em favor da liberdade de pensamento, da livre manifestação e do respeito às escolhas que os indivíduos devem fazer nesta vida. Foram os precursores de uma sociedade liberalizada, que foi aos poucos modificando-se e que se encaminha, hoje, para experimentar o outro lado: os excessos  do individualismo. Justamente por deixar o materialismo, o consumismo e o imediatismo serem os elementos norteadores e, assim, abandonarem os valores transcendentes que levam à consciência de si e à agregação social.

Paradoxalmente, os Beatles que mais cantaram a paz e a fraternidade entre os homens foram aqueles que morreram estupidamente assassinados. Tiveram a sua privacidade invadida e suas vidas ceifadas por verdadeiros animais brutalizados e bestializados. Ambos buscaram o amor de livre expressão, propugnados durante os anos 80, e tiveram que, para isso, viver de um aparente paradoxo: a ilusão de um lado e o mundo concreto, de outro, como matéria-prima de inspiração, criatividade e inventividade em suas inúmeras canções.

Se mergulharmos em suas histórias pessoais, veremos que os quatro rapazes buscaram ver suas fantásticas vidas sendo construídas usando elementos de cada uma de suas vidas como insumo.  

O mais enigmático, Harrison, era, também, o mais místico, achava ele mesmo paradoxal viver a espiritualidade e participar das turnês. Sempre buscava colocar sensibilidade em tudo o que fazia, porque, expressando o próprio pensamento do grupo, dizia que em tudo era necessário colocar um tempero para dar gosto às experiências vividas. 

Seu colega, Johnn Lennon, falava sempre em manter, usando um tom até mesmo arrogante, o próprio caminho como guia: ambos acreditavam que deviam duvidar de tudo aquilo que não fosse fruto de suas experiências e certezas interiores. 

Foi nesse contexto que Lennon chegou a afirmar que a popularidade deles era maior do que a de Jesus Cristo. Essa frase, na época, causara grande alvoroço da mídia e indignação por membros de igrejas, mas pouco entenderam esses críticos o significado desta afirmação.

Num tempo em que emergiam novas igrejas, pregando dogmas e doutrinas voltadas à submissão, ao poder de falsos líderes e o cerceamento da liberdade de o indivíduo seguir suas inclinações interiores, quis fazer referência à autodescoberta, feita fora dos templos, mas no silêncio da vida interior capaz de validar as grandes verdades herdadas de outros homens. 

O seu principal recado, creio eu, tenha sido: Deus está em todo lugar, mas, principalmente, dentro de você. Essa simples realidade quebrava o paradigma de um Deus pessoal, nivelador, punidor, para simplesmente acreditar que Deus é amor e, para isso, é necessário amar o seu próximo como a si mesmo. Creio que Lennon quis dizer que, em sua verdade, não via em Jesus Cristo, estigmatizado pelas igrejas, pela doutrina ou pelo dogma, como um ser capaz de segregar ou oferecer castigo a quem não se alinhasse às leis geridas pelos homens.

Harrison dizia que tinha vindo a este mundo para resgatar o seu Karma. Para isso se propôs a viver intensamente. Não queria esgotá-lo em várias vidas, queria fazer tudo aqui e de forma definitiva. 

Por isso se interessava por quaisquer assuntos de caráter espiritualista,até chegar a se dizer um especialista em espiritualidade. Na canção " My Sweet Lord" fez seus primeiros acordes inspirados na música gospel, para chegar, depois, a tão recitar "hare krishna, hare krishna, krishna hare, hare krishna, uma letra considerada por ele como simples, repetitiva, um verdadeiro mantra, segundo ele, capaz de conter a vibração de sons místicos. "Você fica hipnotizado e não quer mais parar de recitar" dizia ele. A canção abria as portas para seu mundo interior.

George sempre esteve comprometido com sua espiritualidade indiana. Sobre isso, muitos lhe perguntavam o que estaria fazendo, algumas vezes, nas  águas do ganges à meia noite? 

Acordava cedo, meditava e seguia atividades espirituais de rotina. E sempre procurava levar isso às suas músicas. Sempre estava em busca da nota certa, o som marcante e a condição de tocar tal como meditava, transcendendo limites, em busca de um encontro com sua alma através de sons produzidos por sua guitarra. 

Em ambos os momentos, quando tocava ou quando meditava, fazia verdadeiras digressões, sempre levando em conta de que estava entre dois mundos, querendo "transformar o mundo material numa coisa boa". 

Certa vez, quando os quatro besouros ainda estavam vivos, lhe perguntaram o que achava da volta dos Beatles. Usando sua tradicional franqueza simplesmente disse: " ridículo ". "Não me vejo mais como um astro do showbiss". 

Nem por isso os integrantes do famoso conjunto deixaram de ser vistos juntos, uma vez desfeito o conjunto, alimentando sua sempre presente amizade e buscando manter as mesmas referências existenciais que os uniram em Liverpool. 

Mesmo depois de receber oito facadas e estar em estado crítico, recebeu seu colega Ringo Star e usou de sua tradicional ironia e espírito brincalhão para lhe perguntar: "queres que eu o acompanhe" referindo-se à visita que Ringo deveria fazer, ao sair dali, à sua filha, que também apresentava problemas de saúde. Foi nesse momento que disse à sua esposa: "bem, já que estou sendo assassinado, tenho que buscar o desapego".

E eu pergunto: "será que não foi isso que fez ao longo de um período considerável de sua vida"? 

Penso que tenha usado o dinheiro, sem se deixar usar por ele. Preconizou a paz, praticou a amizade que gerou um longo círculo de amigos, entre eles Eric Clapton, de longa data, Bob Dylon, Jacke Stuart, Leon Russel, Ravi Shankar, e muito mais. No casamento, cultivou o amor, a amizade e as coisas engraçadas que a vida pode oferecer. E, ao deixar este mundo, conseguiu exibir uma aura de felicidade de quem encontrou o seu tesouro, depois de muito buscar. 

Os Beatles nasceram em mim para que pudesse quebrar os meus paradigmas de adolescência. Inspiraram-me, durante muito tempo, me ensinando que a vida é uma busca. E, finalmente, chegam à plenitude sexagenária na certeza de que devemos relativizar tudo aquilo que não experimentamos por nossos esforços e dedicação. Na vida, assim como em suas músicas, devemos sair em busca da nota certa, do som marcante e da magia que vem da alma, através de nossos instrumentos existenciais. O resto pertence ao mundo do showbiss. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

Breve reflexão sobre o futebol no Brasil

No momento que inicio a presente reflexão, jogam Paris Saint Germain e Barcelona, partida transmitida ao vivo, tanto pelas principais emissoras de televisão brasileiras, quanto por emissoras de rádio e sites da internet. As atenções futebolísticas se voltam para Paris, França, dentro de uma liga milionária, a européia.

Dizem que, no Brasil, temos mais de 100 milhões de técnicos de futebol. Não me considero um deles mas também gosto de uma boa partida de futebol. Nâo escondo de ninguém as minhas preferências, ao torcer pelo Sport Clube Internacional de Porto Alegre, o chamado Colorado. Meus ídolos de infância e adolescência foram Bodinho, Larry, Elias Figueroa, Claudiomiro, Dada Maravilha, Dunga,e tantos outros que, hoje, em sua maioria ninguém mais ouve falar.

De minha infância para cá o futebol "evoluiu". Naquele tempo, as promessas diziam: quero me tornar um craque, quero estar entre os melhores. Hoje os jogadores dizem: "quero me tornar rico e famoso. Quero ficar conhecido para jogar na Europa".

O futebol se profissionaliza desde a base. Menino de varzea já não tem mais vez. Ou ingressa nas escolinhas  de base, já recebendo contrato envolvendo enormes somas como "futuro craque" ou não precisa colocar chuteira e entrar em campo. Os empresários mandam, os times lutam para saldar as suas folhas de pagamento, a mídia faz o seu marketing, cria mitos como Neymar, um bom jogador, mas aquém do status conferido pela grande imprensa, que chegou a tentar edificá-lo como melhor do que Messi.  

O resultado é esse: sabemos mais dos times da União Européia do que dos clubes que disputam os atuais campeonados estaduais. Os estadios estão vazios, a renda é baixa, os salários estão atrazados, os desníveis são acentuados. Para se ter uma idéia: amanhã o meu time inicia a sua caminhada pela Copa do Brasil, enfrentando o Rio Branco, time do Estado do Acre que também joga com as mesmas cores do colorado gaúcho, vermelho e branco. Mas a diferença termina aí.

A folha do colorado do sul gira em torno de R$6 ou 7 milhões mensais. A folha do Rio Branco gira em torno dos R$80 mil por mes, para cobrir despesas com jogadores, comissão técnica e funcionários do clube. A grande alegria da diretoria é ver a folha paga.

Quem, no Brasil, ouve falar de Rio Branco, Desportiva, São Mateus, Espírito Santo? Pois estes são os principais times do Estado onde vivo. Mas observo o capixaba torcer mais pelo Flamento, Fluminense, Botafogo, Vasco ou Corintians. Enquanto os campos, onde jogam, atraem poucos torcedores, os bares lotam por aficcionados do futebol, o futebol praticado no Rio ou em São Paulo.

Mas nem esses possibilitam os melhores espetáculos, pois a fraca atuação, só para exemplificar a campanha  tímida do Flamengo no campeonado carioca, time de maior torcida do Brasil, repleta de tropeços, justamente contra times pequenos, obrigando dirigentes a promoverem verdadeiras faxinas em seu elenco. O resultado? O torcedor se desespera, se irrita, quer a vitória, nem que seja na marra, quer ver o seu time ganhar. Organizados em torcidas, os torcedores agridem e provocam tumultos, quando os times realizam má campanhas.

Enquanto isso, investe-se somas vultuosas na reforma, apliação e construção de estádios, num País que carece de boa educação e, principalmente, uma boa rede de saúde. E ainda por cima sob denúncias de irregularidades, má gestão e falta de segurança coletiva. Triste contraste.

Com profundo pesar assisti o atual técnico da seleção, Luis Felipe Scolari, que comandou uma campanha medíocre à frente do último time que dirigiu, dizer que o Brasil tem a obrigação de ganhar a próxima copa. Estamos desorganizados demais para isso. Empobrecidos e "profissionalizados" demais.

 Enfim, a esta altura o jogo já terminou, enquanto faço minhas digressões. Jogo de cumpadres: terminou empatado. E, na sequencia, penso que o melhor futebol do Barcelona algum dia se inspirou no futebol brasileiro para chegar onde chegou. Triste contraste. Triste realidade.

A continuar a prevalência desse quadro, tenho que me contentar, num simples dia de semana, a apertar o botão da telinha e ver o futebol europeu e, principalmente, o desinteresse da mídia nacional, monopolizada e cartelizada, esconder a atuação dos clubes brasileiros, jogando em busca de novas glórias, mas ainda em preto e branco.

Nenhuma seleção ganhou tantos títulos quanto a canarinha. Devíamos ter orgulho disso, devíamos ter os melhores estádios, os melhores times e os melhores jogadores. Devíamos ter orgulho de termos o melhor futebol do mundo. Mas agimos como colonizados e não como verdadeiros colonizadores que muitas vezes ensinamos futebol para as demais nações. Em lugar disso temos apenas futebol mediano para mostrar, cuja principal finalidade é preparar jogadores para jogar na Europa. Ou para recebe-los de volta, quando não fazem mais sucesso no exterior, não gozam da mesma fama e, invariavelmente, são meros reservas em times que possuem menor tradição.

Saudades dos tempos de maracanâ lotado e dos grandes espetáculos. Saudades dos tempos em que se ganhava pouco e jogava-se muito. Do tempo que camisa tinha poder e fama era consequência, não objetivo. De lá pra cá, alguma coisa se perdeu. De quem é a culpa?

Certamente os gandulas são fortes suspeitos. E, se não forem eles, quem mais responde pela inversão de valores e interesses corporativos? Quem responde por conhecermos mais sobre o Paris Saint Germain ou Barcelona do que os times que disputam o Campeonato Nacional? Quem mais responde pelas desigualdades na destinação do dinheiro público, enquanto nos portamos como subdesenvolvidos a espiar o que acontece no chamado mundo civilizado?





domingo, 31 de março de 2013

Habemus Papam

Com a renúncia do Papa Bento XVI, a Igreja Católica não teve outro caminho, senão seguir, compulsoriamente, em busca de identificação de um novo pontífice, capaz de liderar o seu rebanho ao longo deste quase início do século XXI. 

Muito se tem falado sobre a escolha, recaída sobre Jorge Mario Bertoglio, bem como de sua impactante ascensão ao papado, escolhendo um nome simples, o de Francisco. Informação sobre o assunto não falta. Por isso não tenho a pretensão de sobressair-me além do que tem sido tratado pela mídia mundial, mas apenas acrescentar alguma contribuição ao pouco que ainda permanece subjacente à discussão.

Tanto a renúncia, quanto a nova escolha, não se restringem apenas à troca de comando numa Igreja, mas vai muito além, já que se trata de um caminho religioso que reúne um contingente que se aproxima, a passos largos, de 1 bilhão e 500 mil seguidores, centenas de milhares de famílias, impactando fortemente no meio onde atua. São fiéis que induzem padrões e atitudes que se refletem na própria caminhada da humanidade, em pleno século XXI. 

É natural à condição humana de, consumado os fatos, querer tocar em frente, superando o que estanca no tempo e abrindo caminho ao devenir. Por isso, não é de se surpreender que Bento XVI passe a ser considerado apenas um Papo benemérito, recolhido em sua clausura, fazendo orações e, de vez em quando, disposto a se avistar com o atual mandatário, Francisco. 

São poucos os que se detém em examinar o significado do gesto assumido por Bento XVI. Afinal, a sabedoria popular diz que "Rei morto, rei posto". Bola para frente. E eu me pergunto: o que teria significado a renúncia de Bento XVI à trajetória da humanidade, já que a Igreja Católica ocupa lugar de destaque nessa caminhada? 

Entendo que renunciar a alguma coisa não significa largar o que lhe incomoda, se ver livre, abandonar o que não lhe serve. Portanto, não creio tenha existido a intenção de Bento XVI abandonar o que lhe estava incomodando para simplesmente retirar-se e passar a fazer o que lhe é mais prazeroso. Ao contrário. 

A Lei da Renúncia é uma importante ferramenta para unificação dos valores humanos e divinos. Nesse sentido, creio que Renúncia não é um estado de mudança que envolve perda, mas, sim, ganho. Não é algo negativo. A Renúncia representa a possibilidade de abrir algo novo em nossa vida. De deixar de apagar-se à materialidade, de desprender-se de tudo que estamos guardando como tesouros, mas que possuem um caráter transitório.

A Renúncia permanente nos permite manter a presença divina em nós. É o gradativo abandono das leis humanas. É o ato de expansão da consciência, através da contextualização de nossa vida ao grande mistério divino, que está subjacente em nossas vidas. A verdadeira renúncia nunca se faz se não houver, junto, um ato de amor. Quanto mais universal é este amor, mais eficaz se torna a Renúncia.

Tenho me perguntado se ser Joseph Alois Ratzinger significa a mesma coisa que ser Bento XVI ou se ser Jorge Mario Bertoglio significa a mesma coisa que ser o Papa Francisco, apenas com a nuance de mudança de nome? Isso seria simplesmente humanizar a função papal e lhe conferir apenas a condição de chefe de Estado, que ele é, mas dentro de uma condição maior de espiritualidade.  

Creio que, ao ser convertido Papa, o ser humano que lhe dá corpo passa a receber uma enorme energia espiritual, que lhe é dada por acréscimo. Recebe uma grande força mística, a que os católicos se referem como a força do Espírito Santo, que transcende em muito a energia humana presente em cada ser mortal.

Essa força, que passa a lhe ser emprestada, lhe altera o seu corpo físico, pela transformação de moléculas constituintes, lhe dando força e tenacidade, assim como seu corpo energético e, principalmente, maior percepção e  consciência, que se eleva e transcende os limites da tão somente presença passageira da dimensão humana. 

Ele passa, enquanto estiver nessa condição, a estar ungido por energias mais sutis de origem divina. Essa força não é do ser humano, que está ali, mas, sim, lhe é alimentado, através de energias de caráter mais sutil. Não lhe pertence e não lhe são inerentes. Mas lhe asseguram, enquanto usá-las, a uma percepção mais sutil do processo de devenir ou, como queiram, processo de evolução contínua, pois é um líder de um contingente de almas em processo de desenvolvimento espiritual. O Homem que habita aquele corpo não é mais o mesmo de antes. 

Nesse sentido, quando as forças se retiram, como foi o caso de Bento XVI, a dor que sente passa a ser inexorável. Creio que o Papa renunciante sabia disso. Por isso mesmo optou por uma vida monástica até fazer a sua transmutação à sua condição anterior. Mas sua dor não é em vão, já que ela será integralmente revertida em favor da humanidade, pois tais energias a ela se destinam. 

Por certo que Bento XVI se torna Josef Ratizinger e por certo que, como homem, não é um ser perfeito, mas em aperfeiçoamento. Em sua visão de pontífice, creio eu, deve ter percebido a necessidade de empreender essa caminhada em função dos rumos que a sua Igreja vinha tomando. 

O período mais crítico dessa transformação foi entre aquele momento em que a guarda do Vaticano se retirou e, simbolicamente, fechou as portas da residência papal, enquanto Ratizinger pegava o helicóptero para seguir viagem à sua nova morada, até a aparição de Francisco na sacada para saudar os fiéis na praça de São Pedro.


Acéfalas, as forças sutis ficaram difusas, perdendo a sua condição de fazer frente às forças mais densas. Isso trouxe consigo muito sofrimento aos mais sensitivos e perceptivos. Um grande perigo à humanidade. Mas, felizmente, a enorme corrente de orações que se levantou possibilitou um reequilíbrio das forças. Creio que esse também deve ter sido o ponto mais alto da dor sentida pelo Pontífice renunciante. 

Decorridos os prazos de proclames, o colegiado papal se reuniu e escolheu um nome capaz de provocar verdadeiras mudanças, a que a Igreja tanto necessita. Não mudanças a serem efetivas pela força da caneta, nem pelo poder da força, mas pelo exemplo, assim como fez o seu principal mentor e fundador do movimento cristão. O novo Papa escolheu promover as reformas necessárias através de seus próprios atos, convertendo-se ele mesmo em sujeito da transformação. 

Dura missão, num mundo onde prevalece o imediatismo, o materialismo, o consumismo e, sobretudo, o individualismo, despido de quaisquer intenções transformadoras. Num mundo onde os seres humanos não estão dispostos a conviver em comunidade, nem submeter-se a entregar-se à grande manifestação do coletivo. Num mundo em que se espera não mais do que uma revolução meramente conservadora, bonita nos discursos, porém pobre de intenções de renúncia e elevação pelo amor ao próximo. Uma busca onde a égide seja mais dogmatizar em lugar de dogmatizar-se.

Dificilmente saberemos as intenções de cada membro do Colégio Cardialístico, ao apontar um sul-americano para conduzir católicos do mundo inteiro.  Mas certamente a tarefa do escolhido deverá ser hercúlea: transformar, convertendo-se ele mesmo em exemplo inspirador. Ou como disse em seu pronunciamento: " vós sabeis que o dever do conclave era dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais foram quase ao fim do mundo para busca-lo. Eis-me aqui".

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Bento XVI

Desde que anunciou a sua decisão de renunciar ao seu Pontificado, Bento XVI, ou melhor, Joseph Alois Ratzinger têm gerado, entre católicos, e também não católicos, especulações sobre o significado da decisão tomada. Afinal, ao longo da história papal não foram muitos os casos de mandatários que deixaram seus postos ainda em vida. "O cargo é vitalício, é óbvio", dizem os mais incrédulos.

Gostaria, no espaço a seguir, de traçar as minhas impressões sobre como vi o Sumo Pontífice em face da renúncia anunciada.

É simplório demais acreditar que o principal motivo dessa decisão esteja no fato de sua idade avançada, e também encontrar-se doente para exercer um cargo que exige vitalidade, agilidade para acompanhar a diversificada pauta de compromissos e  obrigações à frente de uma Igreja que possui o maior número de adeptos em todo o mundo.

A falta de um pronunciamento explicativo mais amplo deixou um conjunto de incertezas, entre os católicos. Nada mais aguça o ser humano do que não entender o que acontece no contexto onde habita.

Aos poucos e aqui e ali vão surgindo sinais que levam a uma explicação mais plausível e coerente sobre o contexto onde se insere a decisão de abandonar a continuidade das obras iniciadas por Pedro para simplesmente se recolher à clausura.

Tive a oportunidade de assistir a Santa Missa, Benção e Imposição das Cinzas, na Basílica de São Pedro, cerimônia que abriu o atual tempo de quaresma, em transmissão direta do Vaticano, o primeiro evento público após o anúncio e um dos últimos compromissos do Papa, antes do dia 28 do corrente mês, quando cumprirá o anunciado.

Assisti o Papa oficiar a Santa Missa com desenvoltura e lucidez, mas tive a impressão de que estava profundamente triste, amargurado, exibindo um semblante sem brilho, muito distante da altivez e envergadura que exibiu no dia 24 de abril de 2005, data de sua entronização.

Em suas palavras usou expressões como "não fazer as coisas simplesmente para agradar os homens", "existência de hipocrisia e disputa pelo poder", "saber reconhecer e perdoar as falhas humanas, existentes em sua Igreja".

Causou-me a impressão de estar carregando o peso de toda a sua impotência em fazer implantar importantes reformas para a formação de uma nova Instituição, por esbarrar em velhas atitudes humanas. A ponto de revelar seu firme propósito de, consumado o seu afastamento, retirar-se para uma vida voltada exclusivamente à Deus, à meditação, à única glória de estar vivendo em toda a sua plenitude os valores transcendentes.

"O mais importante é Deus. Somos pó e ao pó retornaremos. Nossas cinzas são o marco de nossa finitude", disse ele em suas sábias palavras. Algo que foi dito com muita propriedade e sabedoria e matéria para pensarmos reiteradas vezes em nossas reflexões e meditações sobre o significado de nossa existência.

Deixou-me também transparecer que sua escolha significava respeitar o arbítrio humano de traçar seus rumos, muitas vezes manifestados, por seus colegas de monásticos, através de discursos reformistas, mas, na prática, almejando meras reformas conservadoras. Atitudes que colocam em cheque sua autoridade papal e a relativação de seu poder como lider da Igreja. E a possível condição de sofrer mais por não ver homens cumprir com os votos que eles mesmos proferiram do que ver arranhada a sua imagem de lider espiritual de sua Igreja.

Isso me fez lembrar o que aconteceu, recentemente, com uma não menos importante Ordem Esotérica, a que estou ligado por laços afetivos, que também viu o seu principal mandatário renunciar a um cargo vitalício para seguir em sua decisão de se recolher à reflexão e à meditação, à vida monástica em clausura.

Para mim existe uma ligação estreita entre ambos os casos. E está ligada ao atual estágio que se encontra a humanidade. Muitas vezes estive, em minha vida profissional, à frente de agrupamentos humanos, até chegar a compreender que podemos mudar os homens somente em suas dimensões exteriores.

Mas não podemos mudar a essência de seres humanos. Somente esses, com seus livre-arbítrios e por vontade própria podem transcender suas limitações. Por isso, mesmo numa dimensão infinitamente menor do que dirigir cerca de 1,2 bilhões de pessoas, me senti muitas vezes fracassado, por não conseguir gerar os efeitos multiplicadores preconizados. Por isso faço um esforço para entender o que possa ele estar sentindo, frente ao momento que vive, matéria de muito sofrimento e despojamento frente à realidade maior.

Não há discurso capaz de levar outros seres humanos a empreender reformas em suas vidas, a não ser que esses queiram, por vontade própria e pelo desejo de se tornarem melhores aos olhos divinos. Não há como liderar mudanças em ambientes onde seres humanos não desejam mais do que a manutenção do status quo, ainda que muitas vezes acompanhados de discursos eloquentes em prol de um novo amanhã.

Não há como mudar seres humanos que não querem mudar. E é também por isso que, nesse caso, a oração de São Francisco permanece letra morta nos corações dos homens, uma verdadeira utopia, reconhecida e aclamada por todos, porém ausente em corações humanos, até entre muitos que dizem levar uma vida consagrada. Afinal, o ego se constitui no mais importante obstáculo entre uma alma que busca e consegue alcançar a liberação espiritual.

Ambos os casos citados levam a crer que esses episódios não se constituem uma questão afeta a uma Igreja ou a uma Ordem Esotérica, mas transborda para uma humanidade que, neste momento, ainda não conseguiu harmonizar valores humanos e divinos. Sobre isso lembro-me dos ensinamentos de Maratma Gandhi que disse que a coisa mais difícil de realizar é assumir coerência entre o que se pensa e o que se pratica. Viver com coerência.

E é por isso, também, que juramentos são relegados à letra morta, promessas não são cumpridas, palavras são jogadas ao vento, enquanto nosso discurso passa a ser carregado da máxima popular: " faça o que eu digo, não faça o que eu faço".  

É preciso coragem, determinação para mudar, disposição para obedecer a ordem superior cósmica. Fugimos de nossos sonhos com medo de falhar. Por isso que renunciar a si mesmo é considerado o ato mais sublime.

É por isso que a passagem da raça Atlante para a raça Ária durou cerca de 1.000 anos, pois o ego não quer morrer. E também é por isso que ainda não aprendemos a dar sucessão ao nascimento de um novo homem, mais altruísta, solidário, participativo e respeitador das diferenças humanas, mas, sobretudo, com mais amor despojado para oferecer a seus semelhantes.

Creio que, em nome desse amor, se baseia a decisão de retirar-se da vida pública para deixar seus comandados escolherem seus próprios rumos e realizarem reflexões acerca de seu ato de renúncia.

Enquanto via o Santo Papa oficiar aquela missa passei a imaginar se, em seus pensamentos, cheios de consciência expandida e repletos de humanidade, não estariam as palavras de seu principal Mestre e inesgotável fonte de inspiração, que dizia a seus fiéis: "Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem".

No momento em que tanto se especula sobre quem será seu sucessor e quais os rumos que a Igreja deve assumir, Bento XVI deixa uma enorme lacuna para todos os católicos realizarem uma reflexão sobre erros e acertos, rumos e intenções proclamados pelos católicos ao início de um novo milênio.

E conclama a todos os católicos a se "renovarem" e a "se reorientarem em direção a Deus, rejeitando o orgulho e o egoísmo. Com efeito, é um momento oportuno para essa reflexão. Afinal é isso que ele pretende fazer a partir de agora e pelo resto da vida carnal que ainda lhe resta.

 










segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Informações Inúteis


Todos nós lidamos, durante nosso dia-a-dia, com um volume incalculável de informações, seja pela internet, pela televisão, pelo rádio, pelo celular (torpedos), pelo tablet ou quaisquer outros veículos, utilizados por nós para alimentar nossas rotinas. Tamanho volume, tamanha preocupação em separar o joio do trigo. Como saber, entre todas, as que nos serão mais úteis e favoráveis para nos auxiliar a realizar nossos propósitos? Como ter certeza se uma informação é absolutamente inútil e deve ser, portanto, descartada por não agregar valor ao que estamos fazendo?
Quem nunca passou por esse monólogo?

E aí me pergunto: o que vem a ser “informação inútil?”.

Durante a última sexta-feira, em pleno feriado, assisti ao Programa do Jô, quando entrevistava Charles Watson, professor de artes plásticas da Escola de Artes Visuais Parque Laje, no Rio de Janeiro, e me senti impulsionado a mergulhar neste tema, tão pouco tratado pela mídia brasileira.
O tema principal era sobre o processo de criação. A questão informação inútil apareceu na conversa por acaso, mas suficientemente capaz de me fazer interessar pelo assunto.

Para Charles Watson, as informações estão integradas a sistemas e esses, por sua vez, podem produzir informações que consideramos inúteis. Para isso ele pergunta: o que é produzir informação inútil? E ele mesmo responde: “informação inútil é aquela que ainda não entendi como pode ser usada para resolver problemas. Portanto, ele explica, não existe informação inútil”.  
Em outras palavras entendi que informação considerada inútil é aquela que ainda não aprendemos a lhe dar um uso para resolução de problemas aos quais estamos ligados, no que concordo.

Artista Plástico e professor de artes, têm se interessado por processos de criatividade em processos de pintura, assim como a geração de informações em processos criativos. “No Brasil, principalmente, diz ele, há uma crença de que a criatividade está associada à emoção, uma realidade que refuta. Como professor têm se perguntado: quem são as pessoas capazes de codificar emoções? Para ele, o talento tem pouca importância no processo de criação, mas está ligado ao ato de acordar. “Arte não tem finalidade, mas consequências”explica ele. Para isso é necessário dedicação.
Por isso as pessoas consideram algumas informações inúteis. Porque se esquecem que o processo é o fim. “Não é algo que está lá fora. Faz parte do processo. Isso é consequência”, explica ele. E continua: “estranho que os alunos das escolas brasileiras não estejam acostumados a colocar a mão na massa. No Brasil, primeiro definimos para onde ir para depois comunicar uma ideia. Nós saxônicos não dissociamos conceber do fazer. Às vezes falamos para identificar para onde queremos ir. A ideia se processa ao longo do processo.

Entendi, em suas palavras, se é que consigo interpretar seu pensamento, que o processo de criação não se d[a a partir de informações segmentadas, mas através de um pensar/colocar em prática simultâneos, unindo o que quero, para onde vou e o que estou criando.

Isso pode parecer um tanto filosófico, porém existencial.
Assistindo aquela entrevista levei a questão para outro lado. O principal foco da questão não é saber classificar informações, mas quem a classifica. Não há como separar informações importantes ou inúteis sem saber antes, o que é importante em minha vida. O que quero de minha vida. Para onde quero levá-la. Aí sim fica mais fácil lidar com informações, simples ferramentas capazes de facilitar a concretização progressiva dos rumos que queremos dar à nossa existência.

Para validar esse pensamento fiz um exercício prático: fui buscar, em meus arquivos pessoais, muitas informações guardadas ainda sem uso. E fui me perguntando qual o significado de cada informação em meus projetos de vida. E logo-logo me desfiz de uma boa quantidade delas. Pois havia entendido que deveria alinhá-las como consequência de meu projeto de vida e não o contrário: arrumar um projeto de vida para justificar suas existências em meu acervo.
Significa ir de encontro à tendência natural que temos de seguirmos acumulando coisas, entre elas informações, para, a partir delas, chegarmos a compreender quem somos. Em vez disso, devemos inverter o curso para a busca de sabermos quem somos e para onde queremos ir. A vida acontece enquanto a construímos e não enquanto estamos tentando entender para que ela existe e para que ela serve.