quarta-feira, 6 de maio de 2015

Vê Minas

Relatos de viagem






Praça da Liberdade - BH

Foto Fernando Sanchotene 

Há cerca de dois meses descobri a existência de um crédito, junto a uma companhia aérea, que deveria ser saldado de imediato, para não perder a sua validade. "Vá a Inhotim" disse-me a querida amiga Zeth Aguiar. Já minha estimada amiga Ângela Vescovi de Brito me disse: "Você têm sorte. Pode assistir à exposição de Kandinsky, que estará em BH, no período de 18/04/2015 a 29/07/2015, no Centro Cultural Banco do Brasil.

O destino estava claro: Belo Horizonte, como, também, o més de abril, como forma de garantir à tempo as benesses do tal crédito. As passagens foram marcadas, para mim e para minha companheira de quase  uma vida. Restava apenas elaborar um roteiro que incluísse ambos destinos e, ainda, viesse a se converter em experiência singular. E realmente essa se tornou, como pretendo relatar a seguir.

Ao fazer o roteiro, nunca poderia deixar de seguir ambas as sugestões, por terem vindo de quem vieram, pessoas que sempre emitem opiniões balizadas e estão em permanente contato com o mundo das artes, assim como o campo do humanismo. 

Mas aí uma série de imprevistos começaram a acontecer: um dos três dias reservados à visita a Inhotim, exatamente o do meio, estava invalidado, uma vez que descobrimos que o Parque fecha às segundas-feiras. Não faria sentido ir um dia, ficar sem fazer nada no segundo, fixado em Brumadinho, e voltar no terceiro para complementar a visita feita durante o primeiro dia.

Na mesma linha, o hotel consultado confirmara as reservas solicitadas para apenas durante o final de semana. E, com isso, não haveria acomodações para os dias restantes programados às visitas. E, também, pelas informações levantadas, estaríamos em plena alta temporada, reduzindo, assim, em muito a oferta por hospedagem e por alimentação, em quase todos os fluxos turísticos próximos à capital mineira.

Prédio onde funcionou muito tempo a Secretaria de Obras

Praça da Liberdade

Foto Fernando Sanchotene 

A solução passou a ser transferir a estadia para Belo Horizonte. Afinal, voltar à capital mineira é sempre gratificante, pois já estivera em seus domínios por diversas vezes, a maioria por motivos profissionais. Mas aí comecei a me perguntar: o vou fazer, dessa vez, em BH, quando, na realidade, estava mais inclinado a ficar junto à natureza e próximo a Inhotim. 

Por sua vez, por mais dedicada que fosse a sugestão encaminhada por minha estimada amiga Ângela, ver Kandinsky, naquele momento,  significaria mergulhar em trabalhos abstracionistas, que não eram, necessariamente, os meus favoritos, em se tratando de autores contemporâneos.





E assim passei a acreditar que tudo o que previra estava perdendo o sentido. Tal qual Zeca Pagodinho, resolvi deixar-me levar pelas circunstâncias, conforme diz a letra da sua música mais famosa. O resultado? Absolutamente inesperado, vindo a comprovar que tudo o que se afigurava certo terminou errado, assim como sua recíproca, tudo o que se afigurava errado acabou terminando absolutamente certo.

Rendendo-me ao acaso, fui conduzido 
à Kandinsky, ao acervo de Inhotim, aos trabalhos em silk screem da exposição movimento, aos infinitos caminhos que levam a tudo, como partes integrantes das experiências envolvidas, conforme descrevo no espaço a seguir. Caminhos que acabaram por contribuir para a mudança de meu olhar, ao longo de tudo o que vi.  

Só não me atentei para o recado que a vida me apontava, de, literalmente, colocar todos os meus pensamentos dependurados num cabide, e só resgatá-lo uma vez terminada a programação. Pois esses caminhos percorridos passaram a me exigir outras faculdades e outros sentidos não utilizados em nosso cotidiano.

Ao entregar-me ao desconhecido abri as portas para a sensibilidade, a emoção, a intuição, a comunicação interpessoal, a criatividade, imaginação e transmutação de olhares e atitudes, abertas pelo mundo das artes de modo a estimular a vida interior e a espiritualidade. 

Kandinski para todos os olhares...

Foto Fernando Sanchotene


Wassily Kandinsky tem nacionalidade russa e é considerado um dos mais renomados mestres da pintura moderna, pioneiro e fundador do abstracionismo que inspirou a arte do século XX. Odiado por muitos e reverenciados por outros, deixa um extenso legado, sem considerar uma parte marcante de seu acervo, perdido em tempos de guerra. Ao iniciar a minha jornada por Belo Horizonte, no período de 25 a 29 de abril de 2015, tentei entender melhor esse artista, pois inúmeras vezes havia me perguntado: o que o autor quis dizer com "este quadro" ? O que estaria pensando e vivendo no momento em que pintou cada uma de suas obras?

Movido por uma infinidade de perguntas, busquei, desde o início, antes de olhar para os quadros em exposição, conhecer um pouco melhor quem foi e quem esteve atrás de tamanho acervo, uma vez que a exposição que iniciara meus primeiros contatos trazia um lado desconhecido do autor para seu grande público. O resultado foi aprofundar-me nos aspectos e valores existenciais de um homem que, em seus 78 anos de existência (1866-1944, fez muito mais do que pintar quadros, contribuindo para uma mudança do pensamento de seus contemporâneos e uma nova forma de encarar a arte.

À medida que fui penetrando pelos cômodos do prédio onde funcionara, antes, a Secretaria de Segurança Púbica de Minas, caprichosamente restaurada e conservada, fui encontrando respostas às perguntas previamente formuladas. 

Ali estava pujante as marcas existenciais do autor, através de uma iniciativa do Ministério da Cultura e do Banco do Brasil, na exposição Kandinsky: tudo começa num ponto, título que, por si só, já abre o diálogo entre o autor e seus admiradores.

Procurei conhecer melhor o modo como Kandinsky foi se reinventando até a passagem para a abstração, quando passou a acreditar que a figuração deixara de ser a única via possível de representar o ser humano, e, rompendo com o status quo existente, abriu um universo sem fronteiras, levado pela ânsia de querer saber sempre mais e sua inesgotável criatividade e inventividade. 

O primeiro ressinto visitado, logo na entrada, no andar térreo, já me permitiu verificar o quanto o autor diversificou o seu olhar. Uma série de pequenas caixas de madeira herméticas, eram o convite para o visitante enfiar suas mãos e braços por tubos plásticos, nas laterais, para explorar o seu conteúdo. Através do tato, o visitante ia procurando identificar os objetos escondidos naqueles recipientes. Foi uma experiência sensorial que divergia de traços coloridos, lançados quase ao acaso, de seus quadros. Nem bem havia terminado de elaborar minhas digressões, percebi o recepcionista/instrutor se aproximar, em busca de interlocução, pois observara que a maioria dos visitantes percorria aquele setor da Exposição sem fazer perguntas nem dialogar com ele. 

Chegou a meu lado e. percebendo receptividade, começou a falar sobre o autor, meio que avinhando qual seria o meu interesse. Falou no quanto Kandinsky se esforço para quebrar com o seu pensamento, graças, principalmente, à sua fase de convívio com os xamãs, na Mongólia, como pilar da inquebrantável disposição de quebrar paradigmas. 

- "Interessante", pensei com meus botões. O que parecia, ao início, um interesse protocolar, de minha parte, se tornou, em fração de segundos, uma avidez por adentrar naquele mundo. Ele continuou falando sobre as longas temporadas em convívio do autor com povos mongóis, que habitavam o norte da Rússia, onde conheceu, trabalhou e aprendeu com os xamãs a descobrir novas percepções da realidade. A essa altura já estávamos ligados pelos mesmos interesses. 

Não queria outra coisa, senão saber o que o xamanismo teria a ver com o surgimento do Abstracionismo de seu criador. Minhas buscas agora tinham rumo. Já no primeiro andar, verifiquei que a exposição se estendia por várias salas. Os trabalhos expostos intercalavam-se com fotos e pinturas de autores contemporâneos de Kandinsk, assim como projeções audiovisuais explicavam aspectos vividos por esse artista. Já na segunda sala um filme retratava a vida de Kandinsky. A duração de 35 minutos, aproximadamente, começou a desvendar e explicar para mim como e porque nasceu o abstracionismo de Kandinsky.

Pela narrativa, descobri que seus pais, logo em seus primeiros anos de vida, se separaram e ele foi morar com o pai, que o levava por inúmeras viagens que fazia. Já na adolescência, por sugestão ou até mesmo imposição do pai, resolveu estudar Direito, se especializando em Jurisprudência. O pai lhe incultara a idéia de que a carreira, a ser escolhida, deveria lhe trazer amplo retorno financeiro, ainda mais em meio a uma economia russa que vivia de crise em crise. 

Já profissional renomado e interessado em economia, por decisões pragmáticas, resolveu, por volta de 1889, empreender uma viagem à região de Vologda, ao Norte da Rússia, onde buscava conhecer melhor os costumes e a situação econômica do povo dessa região, que tinha ascendência russa e finlandesa. Através de artigos científicos, se interessou em conhecer um povo, especialmente: Zyriane.

Em contato com os Kómi e com a terra nórdica, desenvolveu o amor por aquela gente primitiva, sua vida e sua arte. Fruto desse convívio aprofundou-se em rituais e crenças, principalmente após ler a obra épica filandesa "kalevala". Os Kómi eram idólatras e sacrificavam animais como oferendas a seus deuses. Mas a sabedoria existencial, fruto de um legado transmitido de geração a geração, foi lhe impregnando de novos sentidos e significados. 

As viagens àquela região demoravam muitos dias, se iniciavam em veículos confortáveis, passavam por lombos de burros e acabavam em longos trechos a pé, muitas vezes enfrentando condições climáticas e sítios naturais adversos. Normalmente, encontrava muitos pintores, em seus deslocamentos, que estavam estasiados diante de uma paisagem exuberante, fonte de inspiração à criação de suas obras. Mas, àquela altura, Kandinsky se inclinara a olhar a vida humana, formando a base para a sua arte, em momentos subsequentes. Foi quando, em seus escritos, passou a utilizar, com frequência, a palavra "alma". E, com ela, a dimensão de vida interior.

Como seus recursos, em viagens, eram rudimentares, começou a fazer pequenos croquis, para registrar impressões colhidas ao longo dos caminhos percorridos. Versátil, passou a ser conhecido por seus textos, uma forma de fazer difundir tudo o que vira e buscar transferir, em seu habitat, toda a riqueza popular ao qual aprendeu a respeitar e amar.

Tempos agitados, quando começou a se interessar pela pintura. Começou a pintar utilizando cores vibrantes e seus quadros eram intensos, sempre enaltecendo a luz e suas nuances em ambientes coloridos. Mas um dos seus professores de pintura lhe obrigou  a pintar utilizando apenas o preto e o branco. Aceitando a imposição, porém seguiu em frente carregando insatisfações e inquietudes.



Indumentária Xamã em exposição 

Foto Fernando Sanchotene

Unindo-se aos pensadores contemporâneos, na passagem para o século XX, acompanhou e participou de discussões que buscavam transferir o foco do naturalismo para uma forma emocional, acompanhada pelo simbolismo e pelas evidência das tradições do folclore nacional.

A essa altura, Kandinsky, em seus textos, já falava abertamente, em suas obras escritas, da influência da arte popular e mítica dos povos do norte da Russia. Além, é claro, de retratar o folclore, a música e as histórias populares russas que sua tia lhe contava. Tudo isso eclode a partir de sua obra “Degraus”, um marco delineador em sua existência.

Kandinsky casou-se novamente, adquirindo uma nova residência, inspirando-se nos objetos que adornavam o seu interior. A partir de seus croquis, elaborados em viagem, deu continuidade à sua inclinação de reproduzir formas, objetos, movimentos de luz e sombra. E, quase que naturalmente, mostrou-se insatisfeito com os resultados alcançados. Então começou a buscar uma forma de representar a sua visão interior, caminhando mais e mais para formas abstratas. Já estava presente, em seu interior, a crença de que o uso das tintas (cores) e suas formas poderiam influenciar a alma humana.

Mas ainda ficara insatisfeito, pois ao descobrir que uma parte do público não entendera o significado de suas buscas e simplesmente passaram a cuspir em suas telas. Precisava encontrar uma maneira de motivar as pessoas a aperfeiçoar o seu olhar em relação a tudo o que queria transmitir. 

E, assim, começou a procurar uma forma de introduzir o olhar do espectador no quadro, para que ele girasse e se diluísse na obra, aflorando emoções próximas ao que estava sentindo, ao usar as cores como ícones da condição humana. 

Em outras palavras, Kandinski dera-se conta de que nunca um espectador deveria olhar o quadro a partir de uma visão feita pelo lado de fora, à distância, mas, sim, de dentro para fora. Fazer um movimento entre os traços de suas obras, vivendo dentro da própria criação. E, com isso, tinha certeza de que uma nova linguagem, mais interativa, entre autor e seu público estaria definindo os caminhos da arte nesse início de século XX.

Ora, ao receber tais informações, tudo ganhou um novo sentido para mim. Se eu quisesse entender tudo o que via, não poderia mais olhar de fora e, sim, "de dentro". Ao mudar o meu olhar Kandinski também me inspirou a mudar a minha atitude, dentro do olhar em direção à arte.

E também compreendi que esse olhar mundano, rotineiro, não é dirigido somente à arte, mas a tudo o que vivemos e experimentamos. Sempre olhamos o que está à nossa volta de fora, à distância. Viver desde dentro é estimular uma coisa que chamamos de "empatia". É passar a ver a vida como um constante compartilhar. Tanto os físicos quanto os espiritualistas já dizem isso há séculos: tudo está ligado a tudo. Tudo, simplesmente, é! A física quântica veio para reafirmar que sujeito e objeto são uma coisa só e um influi na forma de olhar do outro. 


Os textos, bem distribuídos ao longo da exposição, servem de referencial
para quem deseja conhecer melhor as obras do artista. 
Foto Fernando Sanchotene 


A esta altura a exposição ganhava, para mim, um novo sentido, e, com ele, o olhar para o próprio universo que habito. Minha passagem por Belo Horizonte já estava, a partir daquele momento, amplamente compensada. Os textos tiveram um papel fundamental nessa compreensão, guiando o expectador em direção a uma nova compreensão do mundo vivido por Kandinsky, assim como ele próprio o fez, em suas obras escritas, paralelas a um mundo de telas, cores e símbolos. 

Tomemos um exemplo:

O autor mantinha predileção por São Jorge que, segundo os textos de suporte à exposição, descreviam o santo: "São Jorge, um dos santos bizantinos mais venerados, foi canonizado na Rússia Antiga e seu dia de festa instituído na época de Yaroslav, o Sábio, que foi batizado com o nome do mártir em sua honra. A partir desse dia passou a se tornar o santo padroeiro dos príncipes russos, e sua imagem adquiriu grande papel na vida religiosa e política do país. 

O Santo era venerado pelo povo também como guerreiro valente ("Legory, o valente") defensor das terras russas, protetor dos lavradores e pastores. A imagem heráldica do vencedor do dragão tinha o sentido simbólico muito mais amplo do que a ilustração da vida de São Jorge. Ela significa a vitória do bem e da fé sobre as forças do mal.



Quadro Milagre de São Jorge e o Dragão
Segunda metade do século XVI, Valogda
têmpera sobre madeira 
Museu Estatal Russo. 

Agora vejamos como Kandinsky retratou o santo de sua predileção. Diz o texto: " Wassily Kandinsky, admirador dos ícones e da cultura popular, faz uma versão muito própria da imagem de São Jorge: uma obra predominantemente abstrata, na qual apenas o título remete a uma interpretação concreta. No caos das manchas de cores expressivas que preenchem a tela, ainda se distinguem contornos de rochas e as figuras da princesa e do cavaleiro derrotando o dragão. Esses detalhes reconhecíveis, fazendo surgir associações, enriquecem as imagens e reforçam seu sentido múltiplo. Mas como os sons da música, livres de grilhões, da forma material, as combinações de cores e contrastes das manchas de cor nesse quadro transmitem os estados de ânimo e de espírito de seu criador". 

Vejamos o quadro:


Foto Fernando Sanchotene


Há um outro aspecto a ser enaltecido. A música também desempenhou um papel fundamental na vida de Kandinsky, já em fase mais recente, quando tudo estava em ebulição, no mundo das artes, ao tempo em que a vanguarda musical russa trabalhava a natureza imaterial da música. Kandinsky simplesmente mostrou-se fascinado, quando ouvira, pela primeira vez, uma ópera de Wagner, entendendo que poderia, com sua obra, penetrar mais do que os limites da própria música.

Para unir a todos esses aspectos, cheguei ao último baluarte da exposição, que se encontrava no andar térreo, no pátio daquele prédio histórico. Representantes de uma empresa de 3D condensaram todo o trabalho de Kankinski em um programa digital, com duração aproximada de 4 m 30 s. Os interessados, após entrar em uma extensa fila, recebiam óculos em 3D e fones de ouvido para, mediante a utilização de uma tecnologia apropriada, viajar pelo quadro mais famoso do pintor, como se estivesse dentro da obra. 

Movimentos com a cabeça animavam, também, as imagens e, quando o espectador desejasse se fixar num ponto, fazia cessar o movimento ao mesmo tempo que cores vibrantes, acompanhadas por músicas diletas do autor, e por narradores, falavam sobre o significado da cor escolhia pelo autor, seu significado psicológico e representação na parte focada.  Para o espectador a síntese do que vira nos espaços anteriores de exposição e, também, tudo o que vivera em sua emoção e sensibilidade, movidos por uma tecnologia 3D. 

Muito poderia ser abordado, no presente artigo, mas, certamente, além de torná-lo exaustivo, não abarcaria toda a vida e toda a obra de Kandinsky. Para os interessados em conhecer aspectos complementares à exposição, convido visitar o site do Centro Cultural do Banco do Brasil, onde encontrarão catálogos, fotos, ilustrações e descrições e narrativas da vida, obra e resultados alcançados por um dos artistas mais completos e famosos do século passado. 

As ilustrações, apresentadas aqui, foram feitas a partir de fotografias captadas através de equipamento rudimentar, para registrar os  quadros existentes. Servem apenas para provocações ao espectador, embora a sua qualidade esteja comprometida, pois, no local, seus organizadores liberaram os registros fotográficos, cujos resultados são altamente questionáveis, se reproduzidos de forma rudimentar, como acabou acontecendo, sem regular velocidade e abertura de obturadores para colher mais fielmente cores, luzes e sombras. 





Foto Fernando Sanchotene

A programação será mantida até do dia 22 de junho do corrente ano, no Centro Cultural do Banco do Brasil, de quarta a segunda, das 9 às 21 horas, na Praça da Liberdade, 450 (bb.com.br/cultura).

A exposição aconteceu, antes, no Rio de Janeiro e em Brasília. Depois de Belo Horizonte será a vez de São Paulo e, dali, voltará para seu lugar de origem. O acervo tem como base a coleção do Museu Estatal Russo de São Petersburgo, além de obras de oito museus do interior da Rússia e de coleções particulares.

Inhotim: um lugar de excelência



O ônbius sai do Terminal Rodoviário do Centro de BH às 8h15m até o estacionamento do Parque, após uma viagem de, aproximadamente, 1h50m. E retorna saindo do Parque às 16h30m. Assim chega-se a Inhotim, área natural localizada em Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, ocupando uma área de 110 hectares de visitação, onde se encontram áreas de floresta e Jardim Botânico.

Ali há uma coleção de arte conhecida internacionalmente. As obras individuais estão dispostas em Galerias, assim como há obras externas permanentes. O espaço natural também está dotado de Fonte, Lago e Praça, havendo espaço para exposições temporárias. Segundo informações divulgadas pela Administração do Parque, cerca de 700 trabalhos e cerca de 200 artistas de diferentes países do mundo estão à espera de visitação.

Em relação às áreas naturais, Inhotim busca preservar espécies, desenvolver pesquisas botânicas como forma de contribuir para a manutenção da biodiversidade de Minas e do Brasil. Segundo a Direção do Parque, a coleção botânica, exposta pelos jardins, está assinada pelo paisagista Pedro Nehring ou mantida em estufas climatizadas, compreendendo cerca de 4.200 espécies de plantas, algumas em vias de extinção. Cuidar dos acervos natural e artístico às novas gerações também suscitou a elaboração de um programa para receber grupos organizados, segmentos empresariais do setor público e instituições que mantenham, como foco a cultura e a tradição.

Pelos motivos já expostos, anteriormente, restou apenas um dia de programação para conhecer aquele local. Além da biodiversidade foi possível conhecer a exuberante vegetação e a existência de espécies ameaçadas, como Paxiúba ou Socratea Exorrhisa (foto abaixo), que ocorre na América Central e América do Sul. Parece que o grosso caule vai se dividir em inúmeros outros, mais finos, se adentrando pela terra.. E há também bromélias imperiais, palmeira azul, jequitibá, pau brasil e orquídeas.



Paxiúba
Foto Fernando Sanchotene

 Uma vez que o visitante tenha passado pela recepção, logo vai encontrar belíssimas paisagens naturais, além de inúmeros caminhos ao logo de  uma vegetação exuberante.



As obras de arte estão distribuídas em inúmeras galerias, ao longo de uma extensa área do Parque. Os trechos mais ingrimes, nos diferentes caminhos de ligação para as galerias, é percorrido, através da utilização de veículos movidos à energia elétrica. Os trechos mais planos são percorridos à pé. 

Além das obras expostas nas galerias, o caminho está repleto de obras a céu aberto. 




Untitled (2000- 2005)
por Edgard de Souza
Andando pelo Parque, todos os cenários estão liberados aos registros fotográficos, menos as obras que estão expostas no interior das galerias. Por isso este blog não poderá ilustrar os espaços internos visitados. Como o tempo disponível era curto, o melhor era visitar os lugares mais distantes e, à medida da disponibilidade, os locais mais próximos do prédio da recepção. 

Por isso o objetivo maior foi chegar ao G10, um dos pontos mais distantes do Prédio da Expedição, no local denominado popularmente de "o som da terra" ou Sonic Pavillion (2009), por Doug Aitken.

Sonic Pavillion

Um prédio, em forma  redonda, envidraçado, conforme mostra a foto, em segundo plano, abriga um cilindro, de, aproximadamente, 30 ou 40 cm de diâmetro,está encravado na terra, medindo cerca de 250 m de profundidade. Ao longo dele há microfones, cujos captadores são de alta sensibilidade, que captam o som das profundezas, amplificam  e ecoam por aquele espaço interior. Muitas vezes o som é semelhante ao ronco de uma moto 450 ou 750 cilindradas. 

Ao ingressar no local, o guia nos adverte que, em seu interior, deve-se guardar amplo silêncio. Estávamos rumando ao prédio, quando se juntaram mais três franceses, dois deles falando muito pouco o português. Já nos preparávamos para o silêncio, enquanto adentrávamos até o interior da cúpula, quando fomos surpreendidos por um barulho de muitas risadas. Ao vislumbrarmos o salão, vimos um grupo de, aproximadamente, 25 estudantes de nível médio, oriundos da cidade de São Paulo. Concomitante à nossa chegada, o instrutor convidou meninos e meninas adolescentes a se sentarem, formando um círculo, equidistante ao ponto central, onde estava o cilindro que se adentrava pela terra. Na superfície desse cilindro havia um vidro grosso, transparente,  para permitir que o visitante pudesse olhar as profundezas. 

O convite veio extensivo a nós, mais velhos. Depois o instrutor, que é funcionário do local, chamou um a um os estudantes, para que fossem sentar em cima do buraco, em posição de lotus.  

O instrutor perguntava o nome de cada  estudante, e, em seguida, pedia para que o estudante da vez relatasse sua experiência, vivida naquele momento. "Depois de sentar aí, onde você está, você viu alguma mudança em sua vida?" perguntava ele. Muitos, tímidos, encabulados, falavam em tom baixo e se embaralham ao tentar descrever o que sentiam. O instrutor sempre repetia: "fale mais alto para que os outros te escutem".

Até que chegou a minha vez. Sentei-me da mesma maneira, em posição de lotus, no meio da sala, olhando em direção ao instrutor. O silêncio foi quebrado quando gritei bem alto. "Meu nome é Fernando"... silêncio. Veio a pergunta clássica: "Mudou alguma coisa em sua vida, sentado aí?" Eu disse que sim, que agora estava no centro dos acontecimentos. Gargalhada geral.... E depois continuei, dessa vez sério: " Sim. Mudou. Agora sinto uma incrível energia que vem do centro da terra, o som da Mãe Gaia. Disse que me sentia privilegiado por viver aquela experiência, pois a maioria dos homens vivem, hoje, em constante ruídos, sejam das cidades barulhentas, como pelo barulho ensurdecedor de nossos pensamentos. Raramente temos oportunidade, como naquele momento, de encararmos o silêncio e a energia gratificante que a Mãe Gaia nos proporcionava. Ninguém falou nada. 


Grupo desfeito, sala esvaziada, ali permanecemos. O silêncio voltou e as energias foram devidamente apreciadas. Até que, cinco minutos depois, um novo grupo de estudantes adentrou àquele local. Era hora de seguir em frente, pois o aquele momento pertencia aos mais jovens. Já a bordo de um carro elétrico, ouvi meninos e meninas, mais distantes, gritarem: "tchau Fernando, tchau Fernando...." Senti-me gratificado por aquelas manifestações de espontaneidade. 

Espaço reservado a Miguel Rio Branco
Foto Fernando Sanchotene 

As energias puras da terra se dissiparam logo, quando trocamos aquelas vibrações por algo mais pesado, ao adentrarmos no espaço conferido a Miguel Rio Branco (2008-2010). Esse autor elaborou um trabalho fotográfico desenvolvido numa região de prostituição de Salvador. Ao entrarmos na edificação, veio o aviso, dado por um de seus instrutores presentes, de que as imagens eram muito pesadas. E realmente eram. O trabalho mostra a exploração humana e a degradação das relações sociais, em meio ao ambiente deteriorado. Um mundo de cafetões, prostitutas, crianças desassistidas, pobreza em ambientes infectos.

Respiramos profundamente, aliviados, quando o ar puro da mata levou e lavou o que as energias acabaram por impregnar. A parada seguinte foi o espaço de Matthew Barney, denominado de Lama Lâmina. Ao adentrarmos pela estrutura de vidro, em forma de igloo, advinhas quem encontrei? Os estudantes, aqueles estudantes. 

O trabalho consiste na presença de um enorme trator, sujo de lama, cujas pás erguem uma árvore de plástico, com raízes e caule. A obra foi inspirada em ativista americana, que morou três anos em cima de uma árvore, tentando protegê-la de ser extirpada do local. O autor faz alusão à falta de sensibilidade dos homens à riqueza das árvores e das matas na vida moderna. Representa o dualismo entre o bem e o mal. O trator apresenta, na parte posterior e em baixo, uma área limpa, significando que ainda há esperanças para o homem.

E assim se sucederam as visitas aos galpões. Seguiu-se o trabalho de Johan Aheam, intitulado "Rodoviária de Brumadinho" cujas esculturas humanas impressionam por sua semelhança aos seres humanos.




Em área contígua o trabalho de Janet Cardiff, intitulado Forty part motet (2001) onde, em um espaço retangular, distribui-se cerca de 35 alto-falantes em forma circular, contendo, no epicentro, dois bancos, onde o visitante pode sentar para ouvir um coral de vozes. Espetacular. Em outro espaço a mesma artista, Janet Cardiff, realizou o trabalho "The Murder of Crows (2009), também utilizando música, por meio de muitos alto-falentes, porém através de sons urbanos e narrativas que utilizam o idioma inglês.

O trabalho exibido por Cristina Iglesias "Vegetation Room Inhotim (2010-2012), em meio a mata e a céu aberto, cria esculturas em forma de folhagens, pintadas na cor verde, lembrando estruturas em labirinto, culminando com um piso em tela, de onde se descortina as águas de uma nascente correndo por baixo do volume criado. Muitíssimo interessante.




O trabalho de Helio Oiticica, "Cosmococas 1.5" retrata rostos humanos cobertos pelo pó de cocaina, alguns deles desgrudando-se dos rostos, como sinal de esperança na redenção. O trabalho de Carlos Garaicoa, "Ahora juguemos a desaparecer (II) 2002), uma cidade em miniatura, confeccionada em forma de velas acesas, refletindo sobre os rumos escolhidos pelos homens e a circunstancialidade da vida. 

Sem estar incluído no roteiro, descobrimos, envoltos em árvores fechadas, uma capela ecumênica, do qual não resisti e entrei para ouvir um pouco de seu silêncio. Uma pausa espiritual antes de prosseguir o caminho. 

Novamente seguimos por aquelas trilhas, agradecidos por encontrarmos tamanha exuberância, paz, tranquilidade, em meio a um mundo conturbado, imediatista, egocêntrico, que não mudaremos, se não estivermos imbuídos  de uma utopia reparadora. 

O tempo se esgotava, inúmeras obras deixaram de ser vistas, ja que se aproximava, a passos largos, o momento de nos dirigirmos ao ônibus para retornar à capital mineira.Não demorou muito para Inhotim ficar para trás. Mas ficou na memória os bons momentos vividos em seus domínios, com a experiência vivida a certeza de que utilizamos muito pouco todos nossas sentidos,o tato, os cheiros, os sons puros, pois, em prol de nosso desenvolvimento, senão para vivermos a mesmice de nosso quotidiano, completamente adormecidos e anestesiados. Acordar, através deles, significa deixaremos a condição de ter, para ingressarmos na dimensão do ser, verdadeiramente holístico, realmente integrado a tudo o que se manifesta no Universo, visível e invisível. 

Sobre isso me lembro de uma frase, escrita por Joseph Campbell, em O Poder do Mito, sobre nossas buscas existenciais: " Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonâncias no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estarmos vivos...."

BH: infindáveis caminhos que levam a tudo!

 Foto Fernando Sanchotene

Feira Hippie


Ir à Belo Horizonte e não visitar a feirinha hippie é quase como ir à Roma sem ver o Papa. Seu nome oficial é Feira de Artes, Artesanato e Produtos de Variedades de Belo Horizonte, ou, simplesmente, Feira Hippie. Ela acontece aos domingos, de 7h às 14h na Av. Afonso Penna. Recebe visitantes não só locais, mas, também de diversos estados e países, se constituindo em ponto de encontro para a população local.  

Segundo informações do Portal PBH, foi criada por um grupo de artistas e artesãos, em 1969, acontecendo suas primeiras edições na Praça da Liberdade, ganhando um acentuado ritmo de crescimento, até que passou a ser reconhecida em âmbito nacional. O sucesso da Feira exigiu, de seus organizadores, espaços maiores. Em 1991 foi transferida para o local atual  e sendo hoje considerada a maior feira de artesanato e variedades a céu aberto da América Latina. Calcula-se que hoje esse evento receba mais de 80 mil visitantes, que entram em contato com mais de 2.000 expositores, distribuídos em 17 setores. Segundo cálculos da PBH, a Feira emprega mais de 10 mil pessoas,diretamente, e outros 20 mil empregos indiretos. 

Cantores sertanejos alegram a visita às barracas
Variedades de produtos que vão desde roupas femininas, bolsas, sapatos, bijuterias, móveis, até comidas típicas, bebidas, formam um cardápio diversificado da culinária mineira. No local as presenças de cantores, repentistas, duplas sertanejas, ambulantes, que se misturam com o grande público frequentador, que circula entre as barracas. Ao final dessa visita, foi inevitável sairmos carregando sacolas e mais sacolas, para aproveitar preços de ocasião, sem contar com as tradicionais lembrancinhas que serão fatalmente bem apreciadas por quem não teve oportunidade de percorrer os corredores de uma feira tipicamente mineira. 

Mercado Central

Foi inaugurado em 1929, hoje possui cerca de 400 lojas que vendem de tudo: produtos hortifrutigranjeiros, artesanato, roupas, comida mineira, animais domésticos, secos e molhados, enfim, um mundo de variedades. Queijos e doces foram adquiridos para levarmos para casa, como recordação e como extensão da farta e diversificada culinária mineira. 


Resultado de imagem para mercado central bh


Foto retirada do site https://www.google.com.br/

Museu Gerdau das Minas e do Metal 



Foto Fernando Sanchotene

Geralmente quando nos referimos à idéia de um museu, logo vem a mente um lugar que exibe coisas velhas, destituídas de vínculos com a realidade atual. Pelo menos esse não é ocaso do MM Gerdau - Museu das Minas e do Metal, localizado na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. O acervo de mineração e metalurgia impressiona tanto pelos objetos expostos quanto sua conotação atemporal, muitas vezes apresentando abordagens das tendências futuras  dos atuais avanços tecnológicos.

Pedras in natura de ouro, cobre, prata, magnésio, entre outras,  além de inúmeros exemplares de meteoros, ao lado de peças lapidadas, utilizando matérias-primas caídas do céu, vão impressionando o visitante, que pode, também, conhecer os diferente usos, feitos pelo ser humano, em diferentes épocas da evolução humana. Usos medicinais, estudos em geologia, nanotecnologia, robótica e até mesmo efeitos holográficos são mostrados ao visitante, sempre permitindo um contato interativo com o visitante. 

Maquetes de regiões das minas e extração de recursos naturais servem não só para mostrar a riqueza das reservas mineiras, mas também para mostrar a identidade do Estado e de seu povo, formados a partir da mineração e da metalurgia. 

Holograma de uma pedra,colocada no fundo de um tubo,
porém vista na superfície de um vidro, através de recursos audiovisuais em 3 D. Foto Fernando Sanchotene 
A proposta dos organizadores é discutir com o visitante "o desvendar do papel do metal na vida humana, sua diversidade, características e processos produtivos e sua inserção no imaginário coletivo. Os metais são os elementos de maior diversidade no universo químico: entender o metal, os minerais e seus componentes significa entender o motor fundamental, não somente da industrialização e do desenvolvimento de uma sociedade, mas também da vida. Além disso, descobrir a riqueza de nosso solo e a diversidade dos minerais é um convite a um passeio especial pelas Minas Gerais, literalmente, no que se refere ao significado do nome de nosso Estado", segundo texto extraído do site http://www.mmgerdau.org.br/sobre-o-museu.   

Ainda segundo o mesmo texto, o MM Gerdau - Museu das Minas e do Metal foi implantado e mantido pelo Grupo EBX de 2008  a 2013. A partir de dezembro de 2013, a Gerdau assume a manutenção do espaço e o Museu passa a se chamar, desde maio de 2014, MM Gerdau - Museu das Minas e do Metal. 

Ametista: pedra bruta e lapidada em anel feminino
Foto Fernando Sanchotene 
Meteoro disponível ao tato pelo visitante.
Foto Fernando Sanchotene

No terraço também acontecia a exposição Tubismo,
do artista Ricardo Carvão Levy
Foto Fernando Sanchotene 

MOVIMENTOS
Centro Cultural Banco do Brasil 


Em cartaz, também no Centro Cultural Banco do Brasil, MOVIMENTOS, mostra individual do artista André de Castro, que foi exibida na Art Basel de Miami, BKLYN air no Dumbo-Brooklyn, assim como da Opus Galery, no Chelsea. 

"O artista visual André De Castro inspirou-se em movimentos políticos desencadeados em todo o mundo, durante os últimos anos, para elaborar painel formado por telas de silkscreen com uma série de retratos e referências a jovens que participaram das manifestações democráticas no Brasil, 2003, além da Turquia (2013), EUA (occupy, 2011) e Grécia (2010)". Texto divulgado pelos organizadores como forma de convidar o público a debater visualmente, em diferentes escalas de análise, esses complexos e vibrantes movimentos. 

O visitante pode, ainda, encontrar depoimentos gravados em vídeo, narrativas sobre os Movimentos espontâneos que culminaram em transformações da realidade, a partir de insatisfações e de questionamentos aos diferentes governos, que impingiam ao povo medidas saneadoras e que exigiam verdadeiros sacrifícios do povo, ao tempo que ocorriam desmandos, em uma ou mais instâncias de governo. Nada mais atual. 

Na foto, o destaque fica para o grande Mahatma Gandhi,
lider da maior revolução pacífica ocorrida na sociedade dita moderna. 


André de Castro também fez experimentos, procurando
fundir rostos renomados, como, acima, de Che Guevara e de Marylin Monroe.
Fotos de Fernando Sanchotene

O Balanço Final

Um amplo e diversificado roteiro foi cumprido em Belo Horizonte, deixando para trás o gosto de quero mais. Assim é Belo Horizonte, com suas largas ruas,  bem arborizadas, conservando o seu acervo arquitetônico histórico, estimulando a arte, a cultura e o conhecimento. Capital hospitaleira, povo amável e gentil, bons hotéis, bons restaurantes, rica em atividades de teatro, música ao vivo, clássicas e populares, culinária regional e também internacional, sem deixar de atender vegetarianos, veganos e visitantes com restrições alimentares. 

Núcleo polarizador de uma extensa região de turismo histórico, de saúde e de lazer, dizem que lhe falta apenas uma coisa para ser completa: o mar. Mas amplamente compensado pela diversidade das Minas Gerais, do jeitinho mineiro de caminhar e receber, deixando ao visitante, que retorna a suas origens, apenas uma interjeição que resume tudo: Uai! 

Valeu Belo Horizonte. Se Deus quiser até breve... 

A cidade de Belo Horizonte, vista do alto do prédio onde 

funciona o MM Gerdau de Minas e do Metal. 
Foto Fernando Sanchotene 


domingo, 28 de setembro de 2014

VIVA A VIDA

O dia mais belo? Hoje.
A coisa mais fácil? Errar.
O maior obstáculo? O medo.
O maior erro? O abandono.
A raiz de todos os males? O egoísmo.
A distração mais bela? O trabalho.
A pior derrota? O desânimo.
A primeira necessidade? Comunicar-se.
O que mais lhe deve fazer feliz? Ser útil aos demais.
O maior mistério? A morte.
Nosso pior defeito? O mau humor.
A pessoa que nos é mais perigosa? A mentirosa.
O sentimento mais ruim? O rancor.
O Presente melhor? O mais belo que possamos dar: O perdão.
O bem mais imprescindível? O lar.
A rota mais rápida? O caminho certo.
A sensação que nos é mais agradável? A paz interior.
A maior satisfação? O dever cumprido.
O que nos torna mais humanos, mais tolerantes? A dor.
Os melhores professores? As crianças.
As pessoas mais necessárias? Os pais.
A força mais potente do mundo? A fé.
A mais bela de todas as coisas? O amor... sempre o amor!

(Texto que encontrei num folheto institucional da empresa Girassol Presentes, com sede em Gramado-RS, sem identificação de autoria).

domingo, 1 de setembro de 2013

À Procura por Deus

Durante a última semana, enquanto assistia um telejornal de uma emissora capixaba, surgiu uma reportagem que buscava entrevistar o pai de um adolescente brutalmente assassinado nas ruas da Grande Vitória, quando chegava à sua casa. Mesmo com muita dor e após ter testemunhado a execução sumária de seu estimado filho, o pai limitou-se a dizer que o momento atual de violência, vivido pela sociedade brasileira, se deve à falta de Deus no coração dos homens. 

Essa constatação deixou-me reflexivo, pois todos nós sabemos que o mundo seria muito melhor se as pessoas colocassem Deus no coração, pois haveria maior fraternidade, solidariedade e cumplicidade entre os homens. Mas tenho a impressão que os homens têm buscado por Deus em todos os lugares, menos onde O encontramos: no fundo do coração.  
 
Queremos que Ele nos dê tudo e pouco lhe oferecemos em troca.

A vida agitada, o culto ao corpo, ao consumismo, ao prazer visceral, sem contar com o filtro que igrejas e seitas colocam pelo caminho, através de seus dogmas e doutrinas, constituem, em meio a tantos outros percalços, desvios para esta busca. É mais fácil admiti-Lo assistindo o rito, oferecido por um caminho religioso, tornando essa busca mais pragmática, porém recebendo a falsa convicção de que sozinho não é possível chegar a Deus, senão através de um agente intermediário. Ao contrário, a busca por Deus é um esforço estritamente individual através da interiorização da consciência.

Mas como encontrá-Lo? 

Sempre que estou diante dessa reflexão, lembro-me do cantor e compositor Gilberto Gil e de sua extrema sensibilidade e aguçada visão humana. Gilberto Passos Gil Moreira dispensa maiores apresentações. Os brasileiros o conhecem. Há pouco tempo tive a honra de folhear a excelente edição do livro "Todas as Letras", organização de Carlos Rennó, textos de Arnaldo Antunes e José Miguel Wisnik, edição gráfica de João Baptista da Costa Aguiar e iniciativa da Companhia das Letras. Publicado em 1996 pela Editora Schwarcz Limitada., a publicação contempla letras comentadas pelo compositor, produzidas durante a década de 1980.

É claro que Gil transborda sensibilidade e sua insatisfação diante dos porquês da vida. Sobre o principal instrumento desta busca, a meditação, ele fala o que pensa através da letra "Meditação", composta em 1975, que diz à certa altura:

" Dentro de si mesmo 
Mesmo que lá fora
Fora de si mesmo
Mesmo que distante
E assim por diante
De si mesmo, ad infinitum
Tudo de si mesmo
Mesmo que para nada
Nada para si mesmo
Mesmo por tudo
Sempre acaba sendo 
O que era de se esperar".

Reportando-se sobre a letra, afirma Gil: "Uma canção sobre meditação, que é uma canção, que é uma meditação (uma canção-meditação), fruto de um processo de meditação e realizada em estado de meditação. Dentro de mim mesmo. Meditação é uma busca de extratos rarefeitos do pensar e do sentir, do olhar entre o sujeito e o objeto, sobre o si e o em si, e sobre o ser. A letra resultou de horas e horas, dias e dias de meditação sobre a música".

E foi inspirado nessa preocupação de unir experiência e busca por resultados que ele compôs a belíssima letra de "Se eu quiser falar com Deus". Ela vem recheada de experiências de sua alma, dentro de um contexto universal, de quem busca, encontra e transcende toda a dimensão pessoal, conforme a letra enseja, em composição datada de 1980:

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os noz
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar o cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos  do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração.


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas para me segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as  costas, caminhar
Decidido,  pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar
 
Quem ouvir esta música, prestando atenção em sua letra, não precisa mais procurar pistas de como empreender a viagem para dentro de si em busca de Deus. O autor deixa entrever que, para escrever esta belíssima canção, primeiro fez a sua busca, adquiriu suas experiências, chegando a olhar e encontrar dentro de si o Sujeito desta busca.
 
Mais do que tudo relata uma experiência pessoal que canta e encanta, arrebata e inspira, por seu verdadeiro conteúdo universal ou universalista.
 
Para buscar Deus a alma deve calar, renunciando todas as experiências de vida, as ideias pré-concebidas, o delineamento de onde quer chegar. A alma deve despir-se de tudo, inclusive de seu próprio ego, o mais teimoso em deixar a cortina baixar para que a verdadeira realidade se apresente.
 
Lao Tsé, em seu Tao Te King, há cerca de 2.600 anos, já disse que não é o finito que vai ao infinito, mas o infinito que vem ao finito. Isso significa que a alma tem que dar o primeiro passo: fazer silêncio para auscultar a voz do Infinito, a alma do Universo, fora de nossa linguagem e também abstraindo de todas as correntes mentais a que estamos envolvidos, principalmente nos dias atuais.
 
Levados pela fé, todos nós podemos viajar pelas profundezas de nosso ser, até encontrarmos o vazio-Deus e daí a descoberta de um plano diferente de tudo o que se possa imaginar, mas que se imagina existir, a possibilidade de transmutação, com o desaparecimento das manifestações físicas, da entidade psíquica que chamamos alma, do inconsciente eu - para outra coisa, outra forma de consciência. 
 
Por isso me lembro bem, como se fosse hoje, das sábias palavras do padre Inácio Larrañaga, ditas quando eu ainda era jovem, de que "só há uma maneira de encontrar Deus: de joelhos". Se cada um conhecesse e vivesse a realidade tão bem explicadas nos livros máximos da humanidade, a vida terrestre do homem, em lugar de ser um inferno de discórdias, seria, como disse Humberto Rohden, um paraíso de harmonia e felicidade.
 
Creio que esse pai, a que vi naquele telejornal, hoje enlutado, que deu seu brado em meio à dor de ver o seu filho brutalmente assassinado, já iniciou esta jornada, mesmo com todo o pesar de sua alma. Em um mundo conturbado, onde a sociedade harmônica está na UTI, precisamos largar um pouco nossas amarras com tudo o que nos solicita para nos voltarmos para o silêncio.
Se quisermos mudar o mundo, façamos como Gil ou este pai enlutado, colocando em prática nossas experiências de busca, oferecendo uma contribuição para a  própria experiência da humanidade. Não esperemos pelos demais. Iniciemos o nosso trabalho. Com isso, estaremos, por certo, revelando novas formas de existência, que dão um novo contorno à vida neste plano, ora tão conturbada, dolorida e muitas vezes encoberta por nuvens da desesperança. Com isso, vamos seguir rumo ao que diz o Poeta Gil, em sua letra, mesmo alcançando algo diferente ao que anteriormente chegamos a preconizar: 
 
 
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas para me segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as  costas, caminhar
Decidido,  pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar.